06 Dezembro 2010

dar um tempo

Vou ficar uma temporada sem olhar esta página. Estou vivendo mudanças grandes, que pretendo tornar ainda maiores. Para isso, preciso de algum tempo mais real, menos virtual. Desativarei a caixa de comentários. Os amigos saberão informar meu endereço. Talvez sirva de explicação e deleite os versos atribuídos a San Juan de la Cruz (que adapto livre de traduções várias):
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Pássaro Solitário
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Cinco são as condiçoes do pássaro solitário:
a primeira, que ele voe ao ponto mais alto;
a segunda, que não anseie por companhia -nem de sua própria espécie;
a terceira, que dirija seu bico para o céu;
a quarta, que não tenha uma cor definida e
a quinta, que tenha um canto muito suave.
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Obrigado. Até logo.

12 Novembro 2010

ente

Faria eu uma coisa assim: deixar que a chuva caísse, o igarapé levasse, fosse bater no rio e eu fumando porronca na varanda maginando mar. Vida não quer e me dá trabalho. Aguento, tenho que aguentar. Vida manda.

Coisa é um ano, um número, 2010, tudo que nele cabe e o que se traz de antes ou empurra pra depois. Vou pensar, quem sabe até digo. Meu bisaco cheio –não de dinheiro-, sou aprendiz de quase tudo.

Preparo a posse de minhas renúncias.

07 Outubro 2010

entreguerras

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Hoje bateu cansaço.

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Foi intenso: mexeu com sonhos adormecidos, mobilizou forças que pareciam esgotadas, fez reviver emoções quase esquecidas. Renovou um contrato que eu já julgava rompido, refez um compromisso que eu pensava extinto. Assim, buscando na memória da alma o que há de valor no passado, atualizou o presente, projetou um futuro. Mudou tudo.

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Quem fez isso? Uma força, aquela que sustenta essa pessoa indescritível, Marina, e move tudo e todos que estão ao redor, perto ou longe. Uma necessidade, a de recompor-se com o mundo, dar-lhe e dar-se nele algum trabalho enquanto existimos, ele e eu. Um amor, que afinal ainda não morreu, por estes seres tão humanos com quem compartilho a vida. E o desconhecido inexplicável tempo, quando chega –e chegou.

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Mas hoje olhei as ruas desta grande cidade, a pressa de sua gente, seu inigualável e intrincado mecanismo, e senti uma súbita ausência de barro e raízes. Meu olhar buscou em vão um chão com folhas e formigas. Meus pés desejaram caminhos conhecidos, em que eu possa andar olhando para o céu.

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Voltar à base, pensei. Meditar, mastigar, deitar na velha rede o novo tempo vivido, a nova batalha lutada, as novas lições aprendidas.

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Levar a mudança pra casa. Dormir com ela. Com ela acordar.

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12 Setembro 2010

Primeiro turno

Linda cidade, São Paulo, apesar dela mesma. É certo que Marina vai dar um jeito, embora eu desconfie de que vai ser um trabalho bem demorado. Os dias estão limpos, com o sol recortando os edifícios contra um céu quase azul. Terei tempo de ver ao menos um filme -quem sabe este A Origem, cujo personagem central tem a profissão que sempre desejei, espião de sonhos- ou exposição de arte ou os poemas de Pessoa no Museu da Língua ou qualquer uma dessas tantas coisas interessantes que acontecem num universo paralelo ao da campanha eleitoral?
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Por enquanto, assim: saudade e lembrança de um Acre quente e enfumaçado, imagens de um mundo orgânico ressecando antes de se decompor, um cansaço discreto e descansado, sonhos com sereias e monstros, calma no olho do furacão, mágicas no metrô, conversas civilizadas, canções na alma.
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Vejo minha Terra neste final de semana, em que vou cantar parabéns para D. Nenem no seu centésimo aniversário. Depois, de volta à selva de pedra.
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Em busca de um segundo turno.
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16 Agosto 2010

Sede sem sede

Meia noite, meio dia, o tempo de ver a Terra. Com o alívio de duas chuvas, a grama verde desponta por baixo do tapete de folhas secas pintado de amarelo, aqui e acolá, pelas flores que caem dos ipês. Mas o tempo é quente e ainda há fumaça encobrindo o céu. O açude pela metade. Os cajueiros entre flor e fruto, não sei se indo ou voltando, os passarinhos não respondem. E o ipê velho, no alto da Terra, domina e amplia a paisagem com sua luz de ouro que só se mostra nas grandes secas -como esta, como aqueloutra. A cacimba é boa e dá água limpa.
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Seco está o coração desse povo que encontro na cidade, com medo do olhar dos outros, com medo de seu próprio olhar. Marina é a medida de um esforço pela sanidade, é a parte que escapa do auto-engano, indulgência, oportunismo, hipocrisia, cinismo, todas as moedas em circulação no mercado da política. Os outros candidatos são bonecos, os que fazem campanha para eles também. Todo mundo sabe disso, mas a maioria busca na vitória eleitoral uma compensação para a derrota moral.
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Peçam-me água. Não me peçam voto.

Que só quando cruza a Ipiranga

Cansaço. A esta cidade tão grande cheguei após alguns dissabores: um avião que não sai de Rio Branco por causa da fumaça das queimadas, um pneu furado e um posto de gasolina fechado à meia noite na estrada de Porto Velho, outro embarque perdido, um hotel de pulgas, um vôo até Cuiabá, comida de aeroporto, outro vôo até chegar a esse trânsito confortável e a essa sequência tão agradável de reuniões. Mas não estou reclamando, Marina. Eu disse que podias desarrumar a vida velha, então taca ficha.
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Queria ter tempo e dinheiro para ir ao teatro, dar um passeio no Ibirapuera, ver um filme, comprar o Livro Vermelho do Jung que vi numa livraria da Paulista. Talvez na próxima, quem sabe. A cidade vai estar aqui, vai levar ainda muito tempo pra se desfazer, imagino. Uma boa cidade, São Paulo, não pra morar, é claro, mas pra escapar por uns dias, coisa que aprendi nos idos setentas quando a barra pesava em Brasília. Agora a barra pesa no Acre, no seco e fumacento verão eleitoral.
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Imagino a Terra na secura, as plantas morrendo de sede, o açude só a poça, nem duvido que o velho ipê tenha florado e desflorado. E eu no mundo.
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Em tudo por tudo, fico contente quando pergunto no taxi, na banca de jornal, no restaurante da esquina, em toda parte, e as pessoas me dizem que vão votar na Marina -em minha pesquisa sem qualquer rigor científico ela vai muitíssimo bem, obrigado, e nem dou bola para ibopes.
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Cansa um pouco, porém. Preciso dormir, amanhã tem mais. E por esses dias volto para ajudar os conterrâneos a soprar fumaça.
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Em trânsito

Marina, assim você me desarruma a vida. Além dessas viagens madrugada adentro e do trânsito fascinante de Sampaulo, tenho o desgosto de verificar que ninguém toma conta do Acre na minha ausência e a coisa fica uma bagunça. Fumaça de cortar com o terçado, já dava pra ver -pra não ver, aliás- do avião. Acho que o pessoal ouviu dizer que o "novo código" vai dar anistia pra incendiário. Um montão de coisa pra fazer, tudo pra lá de atrasado, duas moedas de 5 centavos no bolso, dívidas e dúvidas multiplicadas, as plantas morrendo de sede, caçadores invadindo a Terra atrás das capivaras... ah, se eu fizer a lista você vai ficar com dó. Pra completar, perdi a chave de casa -e talvez fosse melhor nem ter entrado pra não ver esse acúmulo histórico de desarrumações agora agravado pela mala desfeita às pressas.

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Mas valeu a pena. Deu gosto te ver cada vez mais elegante e afiada, estrela brilhando no céu do Brasil, arrastão de esperança, superação permanente, professora do essencial, cuidando do que importa. Pela calma que conquistas a cada instante de tempestade, pelo brilho no olhar, pela busca da palavra, por alguns milhões de sonhos, pela real realidade, por tanto aprendizado, pela grandeza da alma, por tudo e mais alguma coisa, valeu e segue valendo entrar no movimento sem pré-ocupações ou cálculos de resultados. Ah, eu não perderia por nada no mundo.

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Além do mais, até mesmo um pai ausente tem presente que espera: o menino me deu um sapato novo e macio para bailar, a menina vai me dar trinta dias de serviço como assistente de cronista. Um luxo desmerecido, pois não. E com amor renovado se faz tudo no maior gosto, espanta-se o atraso.

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Marina, dia desses vou de novo -nem precisa chamar. Pego a estrada, sigo o impulso, confio na harmonia que há de nascer em teu ritmo. Quero mesmo é vida nova.

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A vida velha, nem ligue. Bote pra desarrumar.

12 Julho 2010

Em breve, no ar

O mundo tem prazo de validade, data irrevogável para o fim, ou existem outros motivos e intenções ocultas para tanta ansiedade e pressa? Eu deveria correr para pegar esse trem, mas, sabe, eu não faço fé nessa minha loucura e digo: por que tomaria os ilusórios trilhos da loucura alheia? Bastam-me os ecos desta canção. E o mundo, ah, o mundo não vale um beijo partido.
Parece, entretanto, que há possibilidade de que as flores brotem no terreno mais árido. Por isso, sairei às ruas pedindo que votem em Marina. Poderia até encontrar argumentos sólidos e consistentes como tijolos, mas fico, por enquanto, com essa leveza: em nome de uma lucidez semelhante ao vento.
Com as palavras que ele me soprar, farei crônicas. Poesia. Música. Quem sabe...

Durma-se

A pandemia de loucura é semelhante ao aquecimento global: tem períodos de pico e de baixa, mas nos últimos dois séculos vem alterando-se para mais, ou seja, no pico atinge níveis cada vez mais elevados e na baixa não retorna ao ponto anterior, fica sempre um pouco mais acima. Nos períodos de menor loucura, os dias mais calmos deste novo século, há mais insanidade que nas grandes guerras do século passado.

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Mudaram também as formas de contágio e transmissão. Antes, a loucura se disseminava quase da mesma forma que as demais insanidades, por proximidade e contato direto, quase físico. Depois passou a disseminar-se também como as ondas de rádio, potencializada principalmente pelas novas tecnologias da comunicação. Agora transmite-se ainda por conexões sub e supra-psíquicas comparáveis aos fenômenos da física quântica, não-causais e atemporais. Uma pessoa perturba-se em São Paulo, outra responde com perturbação igual ou complementar em Londres ou Tóquio, sem como nem porquê.

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A idéia de perturbação possibilita focar a atenção nas formas mais violentas da loucura, deixando de lado a infinidade de formas mais ou menos brandas, no amplo espectro entre a leseira e o delírio, que muitas vezes incorporam-se à paisagem sem provocar danos aparentes, ruídos ou rupturas, e às vezes são até confundidas com virtude e bom comportamento. Também a loucura violenta é confundida com a maldade e o crime, embora seja extremamente necessário distinguir uma coisa da outra. A frouxidão ética pode ser sintoma da perturbação ou fornecer-lhe campo fértil para o crescimento, mas o mais comum é que a maldade esperta use a loucura como desculpa.

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De todo modo, estas distinções servem tão somente para a auto-defesa, pois não há mais um poder externo e impessoal para mediar conflitos e providenciar soluções. Estado, mercado, coletivos, organizações e até deuses, ideologias e causas perderam a autoridade ao perderem a alteridade em relação à loucura, da qual cada vez mais participam e usam, promovem e potencializam. O dr. Simão Bacamarte atende às terças e quintas, na parte da tarde, no máximo dois ou três clientes e lhes dá algumas pílulas para regularizar o sono.

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